quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nova Friburgo


Por Márcio Madeira

De um lado, o pesadelo.  

Uma madrugada sem dormir, a falta de luz, o alto barulho da chuva vencendo um silêncio de tensão compartilhada. Ta chovendo demais, ta chovendo demais. Pela janela a luz de relâmpagos revela a rua alagada, enquanto o estrondo e o chacoalhar de um carro que tentava escapar revelam o enorme buraco escondido pela água escura. O dia amanhece, os olhos ainda exploram os estragos visíveis, quando o som indescritível de uma avalanche anuncia algo de grandioso acontecendo. O coração dispara, o olhar se volta para a esquerda, e a consciência duvida do que os olhos estão vendo. Todo o morro esta descendo. É muita, muita terra. O entulho some da vista, escondido pelos prédios. Um forte estrondo é ouvido, surge uma gigantesca nuvem de poeira. Não era encosta, não havia falhas na topografia nem tampouco casas em local de risco. É mata nativa, reserva natural. Se ali está desabando, então todo o resto já terá caído.

O pensamento se volta para os amigos que ali residem. Nomes, rostos. Corremos para o telefone. Mudo. Ainda chove forte, mas é preciso ir lá ver.

Há lama e destruição por todos os lados, pessoas choram e correm. Na rua anterior um verdadeiro rio impede a passagem, permitindo apenas ver um caminhão dos bombeiros esmagado por entulhos. “Seis bombeiros morreram” – alguém diz, aos prantos. Não era boato. Mais alguns minutos e a chuva
para.

Podemos chegar mais perto.

Corpos passam em macas o tempo todo, bombeiros perguntam se alguém tem experiência em primeiros socorros ou reanimação. É difícil saber qual a melhor forma de ajudar. Amigos de infância estão debaixo de uma montanha  de lama e escombros, onde antes havia belas casas tradicionais. Uma grávida é resgatada enquanto dá à luz um filho morto. Do outro lado da praça, a água cobre carros e pontes, invade o shopping. Pessoas buscam lugares elevados, cachorros nadam a seus lados. Há pânico e informações desencontradas por todos os cantos. “A igreja de Santo Antônio está destruída”, “o teleférico acabou”, “edifício tal está para cair”, “fulano de tal morreu”, “estrada tal está interditada”, “tal bairro não existe mais”.

Uma volta pela cidade começa a dar a dimensão da tragédia, enquanto a luz não volta e não é possível ver os jornais. A coisa foi grande, foi muito grande. Devem estar tentando falar com a gente, querendo notícias.

O drama extrapola os limites da zona atingida. Não há como tranqüilizar amigos ou parentes. Voltamos para casa. A comida na geladeira ameaça estragar. É preciso fechar o registro de água, para que a lama e o esgoto não contaminem o que resta na cisterna. É preciso economizar. Há pessoas  presas  em elevadores, e a luz não voltará em menos de dois dias. A subestação foi afetada, postes caíram, e há fios de alta tensão entre os escombros, onde também há vazamento de gás. O comércio está fechado, hospitais estão isolados e/ou destruídos, não há gasolina. Amigos se reencontram e cumprimentam em silêncio. Não cabe perguntar se está tudo bem, é preciso buscar novas formas de saudação.

O sol se põe, é preciso tentar dormir. Mas como? Bateria do celular começa a acabar, na eterna busca por sinal. Lanternas e velas se esgotam apesar  do racionamento. O mundo fica cada vez mais escuro, somos todos cegos. A noite se arrasta no medo de que volte a chover. Um banho rápido e gelado no escuro talvez ajude a passar o tempo e a diminuir um pouco a sensação de angústia e tensão.

O sol torna a nascer. Parentes de vítimas não se afastam dos montes de escombros. Passaram a noite por lá. Não existem ônibus circulando, pessoas caminham dias inteiros. O dinheiro é curto, bancos e caixas eletrônicos não funcionam. Filas se formam nos poucos estabelecimentos que se atrevem a funcionar. A entrada de pessoas é controlada, pois há medo de saques. Os preços se multiplicam, uma única vela pode custar até dez reais. Revolta e tristeza invadem a alma: “há necessidade disso? Já não sofremos o bastante?”.

A presidente está na nossa rua, os helicópteros não param. “A coisa deve ter sido ainda maior do que parece” – pensamos. Ainda sem luz, não temos tanta noção. A cidade se enche de bombeiros, policiais, homens do BOPE, da Guarda Nacional. O Exército também está aqui, é muita gente trabalhando.

Na praça ergue-se um hospital de campanha; no Instituto de Educação um IML é improvisado. Um médico pede um pouco de pomada descongestionante, pois o cheiro dos corpos já em decomposição começa a se tornar insuportável, e se espalha por toda a cidade.

Uma grande caixa d’água se rompe num bairro afastado. A notícia ganha proporções catastróficas no boca-a-boca de uma população apavorada. Interfone e telefone tocam ao mesmo tempo. “Corre que a represa rompeu, vai inundar a cidade inteira, a água vai chegar até o segundo andar”.

Bombeiros apavorados sobem em caminhões, doentes são transportados para os andares superiores de hospitais improvisados, pessoas são pisoteadas e atropeladas, ou brigam ferozmente por uma vaga nos caminhões que abandonam o centro à toda velocidade.

Não haveria volume d’água na maior represa da cidade que fosse suficiente para causar nem um milésimo do que era alertado, mas pouca gente consegue pensar calmamente quando até mesmo os militares estão em pânico. Alarme falso, terror real.


De outro lado, a esperança.

Caminhões com donativos começam a chegar um após o outro, enquanto pessoas surgem de todas as cidades dispostas a ajudar. Os telefones começam a tocar timidamente, ainda é difícil conseguir contato. Do outro lado da linha vozes amigas choram de alívio a cada alô.

Boas notícias surgem, de vez em quando. Existem sobreviventes, algumas pessoas são resgatadas com vida. Em Friburgo, no bairro de Duas Pedras, o morador da casa mais alta, próxima à Fundação Getúlio Vargas, sente a estrutura de sua casa balançar e sai de imediato. Desce a rua no escuro e debaixo de chuva dando o alarme do desabamento iminente aos seus vizinhos.

O morro desaba, mas nenhuma vida se perde ali. Herói da vida real prefere o anonimato.

O trabalho no voluntariado consola e renova. A sensação inigualável de servir e ser útil, a admiração por ver pessoas de fora trabalhando tanto ou mais que nós, os interessados. Descarregar um caminhão dá muito mais trabalho do que parece, descobrimos isso rapidamente. E imaginar que, em algum lugar do Brasil, este mesmo trabalho estafante foi feito com alegria por pessoas que nem sequer nos conhecem…

A ajuda material é, a um só tempo, útil e simbólica, pois carrega em si uma mensagem invisível. Sacia as necessidades do corpo, cura as doenças da alma. Uma garrafa d’água não é só uma garrafa d’água. É uma declaração de amor e de apoio, de alguém que saiu de casa e foi comprar, levou para o posto de coleta, onde pessoas com amor carregaram o caminhão. É, portanto, material sagrado. É sacrifício do povo, é atitude, é gente comendo menos para que outros possam comer alguma coisa. É carinho materializado.

Nos hemocentros, filas se formam com doadores. Doadores de sangue, doadores de vida. Gente que literalmente deseja dar parte de si mesmo ao próximo.

Impossível se manter o mesmo diante de tantas forças, sejam elas tristes ou bonitas. De certo modo, é justo dizer que todos nós morremos debaixo do lamaçal. Não somos mais os mesmos, nem temos o direito de ser.

A consciência sobre as bênçãos e responsabilidades de simplesmente estar vivo se amplia indefinidamente. Continuamos aqui, por algum motivo.

Estamos sendo abraçados, protegidos. É preciso justificar isso, é preciso trabalhar, honrar os que se foram, e os que estão ajudando. A vida nos deu uma página em branco. É preciso reconstruir, e fazer uma cidade melhor e mais segura do que antes. É preciso renascer, tornar-se uma pessoa melhor e menos alienada, abandonar o superficial e voltar os olhos ao essencial. É preciso ajudar a quem precisa, dividir o que se tem. Há que brotar vida verdadeira desta mesma lama, adubada por tantos amigos inesquecíveis que por lá pereceram.

A luz voltou, e os jornais falam em tragédia anunciada. Meia verdade. Em Petrópolis e Teresópolis choveram 130 mm. Em Friburgo foram 182. Em algumas cidades a tragédia de fato se concentrou em bairros periféricos e casas em locais de maior risco. Em Friburgo, reservas naturais e mansões desabaram da mesma forma. Casas de classe média alta, a 200 metros de encostas, foram soterradas. Não houve distinção. Falar em drenagem ou muros de contenção diante de tamanha potência é fazer piada de mau gosto. Útil, sim, seria um plano diretor livre de demagogias, e um sistema de alarme eficiente, como o herói anônimo de Duas Pedras.

Chega o domingo, e com ele os primeiros raios de sol. Faz um dia bonito, apesar da poeira, e quando começa a anoitecer o céu assume uma coloração azul deslumbrante. Uma leve brisa sopra pelas ruas desertas, e, por um instante, as sirenes dão uma trégua. Fecho os olhos por alguns segundos torno a abri-los. Perco o olhar nas estrelas e me deixo levar. Em minha cabeça ouço nitidamente a voz vigorosa de Renato Russo cantando.

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã…”

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A desinformação prejudica as Doações

Neste fim de semana, pude ajudar em tempo integral me tornando um voluntário na causa social que é restabelecer o mínimo de dignidade para as pessoas e para o ambiente em que vivemos e convivemos em nossa cidade, nisso, incluo os animais que são os nossos amigos o ano todo, e neste momento de sofrimento, não podendo estes ter o dom da palavra para pedir ajuda, precisam mais do que nunca de nós.

Nestes dias, convivi com diversas representantes de entidades e pessoas ligadas a vários setores que estão atuando nesta causa solidária as vítimas diretas e indiretas no desastre que aconteceu na semana passada na região Serrana.

Percebi três coisas fundamentas:

1º A solidariedade humana é muito grande, maior do que podemos imaginar.

É tanta coisa chegando à cidade, caminhões, caminhonetes, carros de passeio, voluntários locais e vindas de vários outros lugares do país para poder ajudar que é quase impossível mensurar quantas pessoas se envolveram e estão estendendo a mão, seja em forma de doação, prestação de serviço voluntário ou mesmo um ombro ou um sorriso para tentar apagar um pouco do sofrimento das lembranças destes que sofreram na pele toda catástrofe sem precedentes na história do Brasil.


2º A falta de informação para o destino de doações.

Muitas pessoas estão chegando à cidade sem saber para onde devem se encaminhar com a carga que estão trazendo em seus veículos.

Muitas pessoas chegam a cidade, arrecadando doações por ouvirem dizer que a situação X ocorreu desta forma e necessitam de tais coisas, porém, a situação X ocorreu de outra forma, e a necessidade na verdade é outra. Sendo assim, sua carga não se torna útil para a quem se pretendia ajudar.

Desta forma esta carga pode ficar em um local onde o foco de atendimento não consegue encaminhar a doação para os necessitados de direito.


3º Falta de escrúpulos entre Necessitados e Aproveitadores

Como distinguir um necessitado de um aproveitador? Como reconhecer se a doação está indo para a pessoa certa e não para o aproveitador?

Isso é muito complicado, pois muitas pessoas de posse também perderam tudo, então, você não pode negar alimento, roupas e etc para pessoas que antes do desastre, nos dava a impressão de ter muito dinheiro.


Ouvimos relatos de pessoas que vão a locais de doação, mas chegam lá e querem escolher o que vão receber.

# Quem necessita escolhe ou simplesmente agradece?

Outros relatos dizem que entidades chegaram a determinados locais e saíram distribuindo o que havia no caminhão para quem passasse, porém, os necessitados reais, estavam em um ponto mais afastado e não puderam se beneficiar com a doação.

#Cadê o escrúpulo dessa pessoa que recebe a doação porque é de graça mesmo sabendo que não necessita daquilo.

Ouve um relato, no qual o motorista e os membros responsáveis por trazer a doação, foi encaminhado por certa entidade a descarregar os produtos em um determinado local, mas chegando lá, viram com os próprios olhos que o local não era adequado para armazenar aquele tipo de produto no qual eles estavam transportando... desta forma, eles se negaram a descarregar.

#Neste caso, se eles resolverem parar em algum lugar e sair distribuindo tudo diretamente para a população, não posso tirar a razão deles, pois é melhor dar para que alguém consuma do que deixar estragar em algum galpão tosco da vida.


Desta forma, acredito que a falta de uma central de informação aberta, prejudica a assistência que está chegando na cidade para beneficiar realmente o necessitado de menor renda, ou aquele que se encontra em locais mais distantes ou de difícil acesso devido a toda esta tragédia que atingiu nossa cidade.

Acredito que a assistência a logística para o perfeito encaminhamento do que está chegando as cidades, deveriam iniciar logo no primeiro ponto de acesso à essas cidades, mas não vi isso em Friburgo, não há nada no posto policial no alto da serra de quem vem por Cachoeiras de Macacu ou de quem vem por Teresópolis, não posso falar nada da entrada da cidade de quem vem dos lados de Bom Jardim ou Duas Barras, pois não fui para aqueles lados.



O que descrevi acima ocorreu em minha cidade, mas pode estar ocorrendo também em outras cidades que foram abaladas por este desastre ambiental.

Peço que você que está lendo, não deixe de contribuir e ajudar na medida em que lhe seja possível, mas que se certifique que a necessidade que chegou aos seus ouvidos seja verdadeira e que o destino de sua doação chegue realmente a quem precisa.

[]´s a todos!!!